FARMACOLOGIA ANTIARRÍTMICA

Fármacos nas
Arritmias Cardíacas

Mecanismos de ação, indicações e contraindicações dos antiarrítmicos organizados pela classificação de Vaughan Williams. Conteúdo baseado nas diretrizes ESC 2020/2024, ACC/AHA/HRS 2018–2023 e nas melhores evidências publicadas em JACC, JAMA e Arrhythmia & Electrophysiology Review (AER).

Classificação de Vaughan Williams

Os fármacos antiarrítmicos atuam modulando os canais iônicos e receptores responsáveis pelo potencial de ação cardíaco. A classificação de Vaughan Williams (atualizada por Lei, Huang & Terrar, 2018) permanece o principal arcabouço didático, dividindo os agentes conforme o alvo eletrofisiológico predominante. Um mesmo fármaco pode ter ações em mais de uma classe (ex.: amiodarona).

As quatro classes clássicas

Classe I — bloqueadores dos canais de sódio (Na⁺): reduzem a velocidade de despolarização (fase 0). Subdivididos em IA, IB e IC conforme a cinética de bloqueio e o efeito sobre a duração do potencial de ação.

Classe II — betabloqueadores: antagonizam a estimulação adrenérgica, reduzindo a automaticidade do nó sinusal e a condução AV.

Classe III — bloqueadores dos canais de potássio (K⁺): prolongam a repolarização (fase 3) e o período refratário, aumentando a duração do potencial de ação e o intervalo QT.

Classe IV — bloqueadores dos canais de cálcio (Ca²⁺) não-diidropiridínicos: deprimem a condução no nó AV e a automaticidade do nó sinusal.

Princípios de segurança — proarritmia

• Todo antiarrítmico é potencialmente proarrítmico. O estudo CAST (NEJM 1989) demonstrou aumento de mortalidade com flecainida/encainida no pós-IAM.

• Fármacos das classes IA e III prolongam o QT → risco de torsades de pointes. Monitorar QTc, potássio e magnésio.

• Classe IC é contraindicada na presença de cardiopatia estrutural ou doença coronariana (ESC 2020, Classe III).

• Sempre corrigir distúrbios eletrolíticos e reavaliar a função ventricular antes de iniciar terapia.

Classe IA — Bloqueadores de Na⁺ (cinética intermediária)

Classe IA

Bloqueiam os canais de sódio com cinética intermediária de dissociação e também os canais de potássio, prolongando moderadamente a duração do potencial de ação e o intervalo QT. Reduzem a velocidade de condução e aumentam o período refratário.

QuinidinaClasse IA

Mecanismo de ação

Bloqueio dos canais de Na⁺ (fase 0) e de K⁺ (IKr), prolongando o potencial de ação. Possui ainda efeito vagolítico (anticolinérgico) que pode acelerar a condução AV.

Doses terapêuticas

  • VO (sulfato): 200–400 mg a cada 6 h (liberação imediata)
  • VO (gluconato, liberação prolongada): 324–648 mg a cada 8–12 h
  • Brugada/FV idiopática: 600–900 mg/dia divididos
  • Iniciar internado com monitorização do QTc; ajustar em hepatopatia

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Síndrome de Brugada — reduz episódios arrítmicos (bloqueio de Ito)
  • Repolarização precoce maligna e FV idiopática
  • Manutenção de ritmo sinusal em casos selecionados de FA

Contraindicações & Cautelas

  • QT longo congênito ou adquirido — risco de torsades
  • Bloqueio AV avançado sem marca-passo
  • Trombocitopenia induzida por quinidina; cinchonismo em doses altas
ProcainamidaClasse IA

Mecanismo de ação

Bloqueio de Na⁺ com prolongamento do potencial de ação; o metabólito NAPA tem ação classe III. Reduz a condução em vias acessórias.

Doses terapêuticas

  • Ataque IV: 20–50 mg/min (ou 100 mg IV a cada 5 min) até reverter, hipotensão, QRS alargar > 50% ou atingir a dose máxima de 17 mg/kg
  • Manutenção IV: 1–4 mg/min em infusão contínua
  • Suspender se hipotensão ou alargamento excessivo do QRS/QT; reduzir na disfunção renal

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • TV monomórfica estável (agente de escolha na ESC/AHA)
  • FA pré-excitada (WPW) hemodinamicamente estável
  • Diagnóstico da síndrome de Brugada (teste provocativo)

Contraindicações & Cautelas

  • Insuficiência cardíaca / disfunção de VE (efeito inotrópico negativo)
  • QT longo; lúpus induzido por fármaco no uso crônico
  • Suspender se hipotensão, QRS alargar > 50% ou QT prolongar excessivamente
DisopiramidaClasse IA

Mecanismo de ação

Bloqueio de Na⁺ e K⁺ com potente efeito inotrópico negativo e anticolinérgico marcante.

Doses terapêuticas

  • VO (liberação imediata): 100–200 mg a cada 6 h (máx 400 mg/dia; até 800 mg/dia sob supervisão)
  • VO (liberação prolongada): 200–300 mg a cada 12 h
  • Reduzir dose na disfunção renal/hepática; monitorar QTc

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva (reduz gradiente da VSVE)
  • Síncope vasovagal refratária selecionada
  • Manutenção de ritmo sinusal na FA (uso limitado)

Contraindicações & Cautelas

  • Insuficiência cardíaca (potente inotrópico negativo)
  • Glaucoma, retenção urinária, prostatismo (efeito anticolinérgico)
  • QT longo

Classe IB — Bloqueadores de Na⁺ (cinética rápida)

Classe IB

Bloqueiam os canais de sódio com dissociação rápida, atuando preferencialmente em tecido despolarizado ou isquêmico. Encurtam discretamente a duração do potencial de ação. Ação seletiva sobre o miocárdio ventricular.

LidocaínaClasse IB · IV

Mecanismo de ação

Bloqueio rápido e uso-dependente dos canais de Na⁺, com maior afinidade por tecido isquêmico/despolarizado. Encurta o potencial de ação ventricular. Sem efeito relevante sobre átrios.

Doses terapêuticas

  • Ataque IV: 1–1,5 mg/kg em bolus; repetir 0,5–0,75 mg/kg a cada 5–10 min se necessário (máx ≈ 3 mg/kg)
  • Manutenção IV: 1–4 mg/min em infusão contínua
  • Reduzir dose em ICC, hepatopatia e idosos (risco de toxicidade neurológica)

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • TV/FV no contexto de isquemia miocárdica aguda
  • Arritmias ventriculares refratárias durante RCP (alternativa à amiodarona)
  • TV monomórfica sustentada (segunda linha)

Contraindicações & Cautelas

  • Bloqueio AV avançado sem marca-passo
  • Toxicidade neurológica: parestesia, tremor, convulsões, confusão
  • Reduzir dose em ICC, hepatopatia e idosos
MexiletinaClasse IB · VO

Mecanismo de ação

Análogo oral da lidocaína; bloqueio rápido de Na⁺ com encurtamento do potencial de ação. Útil como adjuvante.

Doses terapêuticas

  • VO: 150–200 mg a cada 8 h (máx ≈ 1200 mg/dia)
  • Tomar com alimento para reduzir intolerância gastrointestinal
  • Cautela e ajuste em hepatopatia

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Síndrome do QT longo tipo 3 (SQTL3 — mutação SCN5A)
  • TV recorrente associada a outras terapias (adjuvante à amiodarona)
  • Arritmias ventriculares em cardiopatia estrutural (uso combinado)

Contraindicações & Cautelas

  • Bloqueio AV de alto grau sem marca-passo
  • Intolerância gastrointestinal e tremor frequentes
  • Cautela em hepatopatia

Classe IC — Bloqueadores de Na⁺ (cinética lenta)

Classe IC

Bloqueiam potentemente os canais de sódio com dissociação lenta, reduzindo marcadamente a velocidade de condução (fase 0) com pouco efeito sobre a repolarização. Alargam o QRS. Restritos a pacientes sem cardiopatia estrutural.

Alerta CAST: contraindicados na presença de doença coronariana, IAM prévio ou disfunção ventricular pelo aumento de mortalidade demonstrado no estudo CAST. Use apenas em coração estruturalmente normal.
FlecainidaClasse IC

Mecanismo de ação

Bloqueio potente e lento de Na⁺ (fase 0), alargando o QRS. Também bloqueia o receptor de rianodina (RyR2), útil na TVCP.

Doses terapêuticas

  • VO (manutenção): 50–150 mg a cada 12 h (máx ≈ 300 mg/dia)
  • Pill-in-the-pocket: dose única VO de 200–300 mg (conforme o peso)
  • Sempre com bloqueador nodal (betabloqueador/BCC) no flutter para evitar condução 1:1

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Cardioversão farmacológica e manutenção de ritmo na FA sem cardiopatia estrutural
  • Estratégia 'pill-in-the-pocket' na FA paroxística
  • TV catecolaminérgica polimórfica (TVCP) — bloqueio do RyR2

Contraindicações & Cautelas

  • Cardiopatia estrutural, doença coronariana, IAM prévio (CAST)
  • Disfunção de VE e insuficiência cardíaca
  • Associar a betabloqueador/BCC no flutter para evitar condução 1:1 rápida
PropafenonaClasse IC

Mecanismo de ação

Bloqueio lento de Na⁺ com atividade betabloqueadora leve adicional. Alarga o QRS e reduz a condução.

Doses terapêuticas

  • VO (liberação imediata): 150–300 mg a cada 8 h (máx ≈ 900 mg/dia)
  • VO (liberação prolongada): 225–425 mg a cada 12 h
  • Pill-in-the-pocket: dose única VO de 450–600 mg (conforme o peso)

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Cardioversão e manutenção do ritmo sinusal na FA sem cardiopatia estrutural
  • Estratégia 'pill-in-the-pocket'
  • Taquicardias supraventriculares selecionadas

Contraindicações & Cautelas

  • Cardiopatia estrutural / coronariopatia (CAST)
  • Asma / DPOC (efeito betabloqueador)
  • Bloqueio AV avançado; associar bloqueador nodal no flutter

Classe II — Betabloqueadores

Classe II — Antagonistas beta-adrenérgicos

Reduzem a estimulação simpática sobre o coração, diminuindo a automaticidade do nó sinusal, a corrente If e a condução pelo nó AV. São os únicos antiarrítmicos que comprovadamente reduzem mortalidade e morte súbita, sendo pilar do tratamento das arritmias.

Metoprolol · Esmolol · Bisoprolol · Carvedilol · AtenololClasse II

Mecanismo de ação

Bloqueio dos receptores β1 (e β2 nos não-seletivos), reduzindo AMPc, a frequência de disparo do nó sinusal e a velocidade de condução AV (prolonga PR). Esmolol tem ação ultracurta (IV, titulável).

Doses terapêuticas

  • Metoprolol (tartarato): 25–100 mg VO 2×/dia; IV 2,5–5 mg a cada 5 min (máx 15 mg)
  • Metoprolol (succinato XL): 25–200 mg VO 1×/dia
  • Esmolol IV: ataque 500 µg/kg em 1 min; manutenção 50–200 µg/kg/min
  • Bisoprolol: 2,5–10 mg VO 1×/dia · Atenolol: 25–100 mg VO/dia · Carvedilol: 3,125–25 mg VO 2×/dia

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Controle de frequência na FA e no flutter atrial
  • TSV — término e prevenção; taquicardia sinusal
  • Prevenção de morte súbita pós-IAM e na ICC (mortalidade reduzida)
  • Síndrome do QT longo, TVCP e tempestade elétrica

Contraindicações & Cautelas

  • Bradicardia sintomática, BAV 2º/3º grau sem marca-passo
  • ICC descompensada aguda; asma grave (não-seletivos)
  • Não usar IV junto a verapamil/diltiazem IV (assistolia)

Nota clínica — evidência de mortalidade

Diferentemente da maioria dos antiarrítmicos, os betabloqueadores reduzem a mortalidade em pacientes com IC de fração de ejeção reduzida e no pós-infarto, sendo recomendação Classe I nas diretrizes ESC e ACC/AHA.

Classe III — Bloqueadores de K⁺

Classe III — Prolongadores da repolarização

Bloqueiam os canais de potássio (I<sub>Kr</sub>), prolongando a repolarização (fase 3), a duração do potencial de ação e o período refratário efetivo — refletido no aumento do intervalo QT. Exigem monitorização do QTc pelo risco de torsades de pointes.

AmiodaronaClasse III (I–IV)

Mecanismo de ação

Ação de amplo espectro: bloqueia canais de K⁺, Na⁺, Ca²⁺ e receptores beta (classes I–IV). Prolonga o potencial de ação com baixo risco de torsades apesar do QT longo. Meia-vida muito longa (semanas).

Doses terapêuticas

  • PCR (TV/FV): 300 mg IV em bolus; dose adicional de 150 mg se refratária
  • Arritmia estável IV: 150 mg em 10 min → 1 mg/min por 6 h → 0,5 mg/min por 18 h (máx ≈ 2,2 g/24 h)
  • VO (impregnação): 200 mg 3×/dia por 7–10 dias → 200 mg 2×/dia → manutenção 100–200 mg/dia

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • TV/FV refratária na parada cardíaca (ACLS)
  • Manutenção de ritmo sinusal na FA, inclusive com cardiopatia estrutural/IC
  • Tempestade elétrica e arritmias ventriculares em portadores de CDI

Contraindicações & Cautelas

  • Toxicidade: tireoide, pulmão (fibrose), fígado, córnea, pele
  • Bloqueio AV avançado sem marca-passo; bradicardia
  • Monitorar TSH, função hepática e RX de tórax periodicamente
SotalolClasse III + II

Mecanismo de ação

Bloqueio de K⁺ (classe III) associado a efeito betabloqueador não-seletivo (classe II). Prolonga o QT de forma dose-dependente.

Doses terapêuticas

  • VO: iniciar 80 mg a cada 12 h; titular até 120–160 mg a cada 12 h (máx ≈ 320 mg/dia)
  • Iniciar preferencialmente internado, com monitorização do QTc
  • Ajustar o intervalo pela função renal (excreção renal)

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Manutenção de ritmo sinusal na FA/flutter
  • Arritmias ventriculares (inclusive em portadores de CDI)

Contraindicações & Cautelas

  • QT longo; monitorar QTc na iniciação (idealmente internado)
  • Disfunção renal (excreção renal — ajustar dose)
  • Asma; bradicardia e BAV avançado
DronedaronaClasse III

Mecanismo de ação

Análogo da amiodarona sem iodo, com menor toxicidade extracardíaca e meia-vida mais curta.

Doses terapêuticas

  • VO: 400 mg a cada 12 h, junto às refeições
  • Não usar na IC (NYHA III–IV) nem na FA permanente
  • Monitorar função hepática (hepatotoxicidade)

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Manutenção do ritmo sinusal na FA paroxística/persistente sem IC

Contraindicações & Cautelas

  • Insuficiência cardíaca (NYHA III–IV) — aumento de mortalidade (ANDROMEDA)
  • FA permanente — aumento de eventos (PALLAS)
  • Hepatotoxicidade grave
Ibutilida · DofetilidaClasse III · IV/VO

Mecanismo de ação

Bloqueadores puros de IKr. Ibutilida (IV) para cardioversão aguda; dofetilida (VO) para manutenção do ritmo.

Doses terapêuticas

  • Ibutilida IV: 1 mg (≥ 60 kg) ou 0,01 mg/kg (< 60 kg) em 10 min; repetir 1× após 10 min se necessário
  • Dofetilida VO: 125–500 µg a cada 12 h, ajustada pela função renal e pelo QTc
  • Ambas exigem monitorização contínua do QTc (iniciar internado); corrigir K⁺/Mg²⁺ antes

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Ibutilida: cardioversão farmacológica aguda da FA/flutter
  • Dofetilida: manutenção de ritmo sinusal, inclusive com IC

Contraindicações & Cautelas

  • QT longo — alto risco de torsades (iniciar internado)
  • Hipocalemia/hipomagnesemia — corrigir antes
  • Dofetilida: ajuste rigoroso pela função renal

Classe IV — Bloqueadores de Ca²⁺ não-diidropiridínicos

Classe IV

Bloqueiam os canais de cálcio tipo L no nó sinusal e no nó AV, reduzindo a automaticidade e prolongando a condução e o período refratário nodal. Restritos aos não-diidropiridínicos (verapamil e diltiazem); as diidropiridinas não têm efeito antiarrítmico relevante.

Verapamil · DiltiazemClasse IV

Mecanismo de ação

Bloqueio dos canais de Ca²⁺ tipo L, deprimindo o nó AV (prolonga PR) e reduzindo a frequência sinusal. Efeito inotrópico negativo (mais com verapamil).

Doses terapêuticas

  • Verapamil IV: 2,5–5 mg em 2 min; repetir 5–10 mg após 15–30 min se necessário. VO: 180–480 mg/dia
  • Diltiazem IV: 0,25 mg/kg em 2 min; 2ª dose 0,35 mg/kg; manutenção 5–15 mg/h. VO: 120–360 mg/dia
  • Não administrar IV junto a betabloqueador IV (risco de bradicardia/assistolia)

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Controle de frequência na FA/flutter (sem pré-excitação)
  • Término de TSV por reentrada nodal (segunda linha, após adenosina)
  • TV fascicular idiopática sensível ao verapamil

Contraindicações & Cautelas

  • FA pré-excitada (WPW) — risco de FV por condução rápida na via acessória
  • TV de complexo largo de origem indeterminada — pode causar colapso
  • ICC / disfunção de VE; BAV avançado; uso IV com betabloqueador IV

Outros Agentes (fora da classificação clássica)

Agentes que não se enquadram nas classes I–IV

Fármacos com mecanismos distintos, mas essenciais no manejo agudo e crônico das arritmias. Incluídos na atualização de Vaughan Williams em classes adicionais (0, V, VI, VII).

AdenosinaClasse V · IV

Mecanismo de ação

Ativa os receptores A1, abrindo canais de K⁺ (IKAdo) e causando bloqueio AV transitório e intenso (meia-vida de segundos).

Doses terapêuticas

  • IV: 6 mg em bolus rápido seguido de flush de 20 mL de soro; se não reverter, 12 mg; pode repetir 12 mg
  • Bolus o mais rápido possível em veia calibrosa (meia-vida de segundos)
  • Reduzir dose inicial (3 mg) se acesso central ou uso de dipiridamol/carbamazepina

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Término agudo de TSV por reentrada nodal ou AV
  • Ferramenta diagnóstica em taquicardias de QRS estreito

Contraindicações & Cautelas

  • Asma / broncoespasmo (pode induzir crise)
  • FA pré-excitada; BAV avançado sem marca-passo
  • Efeitos transitórios: rubor, dor torácica, dispneia, pausa
DigoxinaClasse V

Mecanismo de ação

Inibe a bomba Na⁺/K⁺-ATPase (efeito inotrópico positivo) e aumenta o tônus vagal, deprimindo o nó AV.

Doses terapêuticas

  • Impregnação IV/VO: 0,25–0,5 mg, depois 0,25 mg a cada 6 h (máx ≈ 1–1,5 mg em 24 h)
  • Manutenção: 0,125–0,25 mg VO 1×/dia
  • Reduzir na disfunção renal e em idosos; alvo sérico 0,5–0,9 ng/mL

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Controle de frequência na FA, sobretudo em IC ou em repouso
  • Adjuvante quando betabloqueador/BCC insuficientes ou contraindicados

Contraindicações & Cautelas

  • Janela terapêutica estreita — intoxicação digitálica
  • Disfunção renal, hipocalemia (potencializa toxicidade)
  • FA pré-excitada; BAV avançado
AtropinaAnticolinérgico

Mecanismo de ação

Antagonista muscarínico que reduz o tônus vagal, acelerando o nó sinusal e a condução AV.

Doses terapêuticas

  • Bradicardia IV (AHA 2025): 1 mg em bolus a cada 3–5 min (dose total máx 3 mg)
  • Pouco eficaz no BAV infra-His — preparar marca-passo transcutâneo

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Bradicardia sinusal sintomática aguda
  • BAV nodal (supra-His) sintomático

Contraindicações & Cautelas

  • Pouco eficaz no BAV infra-His (pode piorar) — preferir marca-passo
  • Glaucoma de ângulo fechado, retenção urinária
Sulfato de MagnésioEletrólito

Mecanismo de ação

Estabiliza a membrana e modula canais iônicos; suprime pós-despolarizações precoces.

Doses terapêuticas

  • Torsades IV: 1–2 g em 50–100 mL em 5–15 min; pode repetir
  • Manutenção: infusão de 0,5–1 g/h conforme resposta e magnesemia
  • Reduzir na insuficiência renal grave; monitorar reflexos e respiração

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Torsades de pointes (tratamento de escolha, mesmo com magnésio normal)
  • Arritmias por hipomagnesemia e intoxicação digitálica

Contraindicações & Cautelas

  • Insuficiência renal grave (risco de hipermagnesemia)
  • Monitorar reflexos e função respiratória em doses altas
IvabradinaClasse 0

Mecanismo de ação

Bloqueia seletivamente a corrente If ('funny current') no nó sinusal, reduzindo a frequência cardíaca sem efeito inotrópico.

Doses terapêuticas

  • VO: iniciar 5 mg a cada 12 h; ajustar para 2,5–7,5 mg 2×/dia conforme a FC
  • Iniciar com 2,5 mg 2×/dia em idosos ou se distúrbio de condução
  • Alvo: manter FC de repouso 50–60 bpm sem bradicardia sintomática

Faixas usuais para fins educacionais — sempre ajustar por peso, função renal/hepática, QTc e protocolo local.

Indicações

  • Taquicardia sinusal inapropriada
  • Redução de FC na IC (FEVE reduzida, ritmo sinusal ≥ 70 bpm)
  • POTS selecionada

Contraindicações & Cautelas

  • Fibrilação atrial (ineficaz — depende do nó sinusal)
  • Bradicardia; BAV avançado
  • Fosfenos (distúrbios visuais luminosos)

Tabela Resumo — Vaughan Williams

Visão geral dos alvos, principais representantes e efeito eletrocardiográfico predominante de cada classe.

ClasseAlvoRepresentantesEfeito no ECG
IANa⁺ (intermediário) + K⁺Quinidina, procainamida, disopiramida↑ QRS · ↑ QT
IBNa⁺ (rápido)Lidocaína, mexiletinaQRS normal · ↓ QT discreto
ICNa⁺ (lento)Flecainida, propafenona↑↑ QRS
IIReceptores βMetoprolol, esmolol, bisoprolol↓ FC · ↑ PR
IIIK⁺ (IKr)Amiodarona, sotalol, dronedarona, ibutilida, dofetilida↑↑ QT
IVCa²⁺ tipo LVerapamil, diltiazem↓ FC · ↑ PR
OutrosA1 / Na-K-ATPase / If / eletrólitoAdenosina, digoxina, ivabradina, magnésioVariável (↑ PR, bloqueio AV)

Regras práticas de segurança

• Cardiopatia estrutural / coronariopatia: evitar classe IC; a amiodarona é a opção mais segura na IC com fração de ejeção reduzida. O sotalol é alternativa apenas se QTc, função renal e FEVE forem adequados.

• FA pré-excitada (WPW): nunca usar bloqueadores nodais (digoxina, verapamil, diltiazem, betabloqueador, adenosina) — usar procainamida/ibutilida ou cardioversão.

• Classes IA e III: monitorar QTc, potássio e magnésio pelo risco de torsades.

• Betabloqueadores: únicos com redução comprovada de mortalidade.

  • A escolha do antiarrítmico depende sempre da presença ou ausência de cardiopatia estrutural, da função renal/hepática e do intervalo QT basal.
  • Corrigir eletrólitos e suspender fármacos que prolongam o QT antes de iniciar agentes classe IA ou III.
  • Reavaliar periodicamente com ECG (QRS, PR, QTc) e, na amiodarona, com exames de tireoide, fígado e pulmão.

Referências

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